Por que a inflação não cai? Entenda de forma resumida os motivos que explicam a alta dos preços no Brasil e no mundo pós-pandemia

Antes da pandemia, o mundo vivia um período de estabilidade econômica rara: inflação baixa (em torno de 2% nos países ricos), juros próximos de zero e crescimento moderado. No Brasil, a inflação estava controlada, próxima da meta de 4,5%, e os juros básicos em patamares historicamente baixos (abaixo de 7%). Porém, a covid-19 desestabilizou essa realidade em semanas. Lockdowns, interrupções nas cadeias de suprimentos e políticas de estímulo fiscal levaram a uma explosão de preços global, com inflação atingindo picos históricos em 2022 (12,13% no Brasil, 9,1% nos EUA).
Por que a inflação persiste? Os fatores-chave
1.
Efeito cascata nos preços: A alta inicial em alimentos e energia elevou salários, que, por sua vez, pressionaram o custo de serviços. Mesmo com a normalização dos preços de commodities, a inércia salarial mantém a inflação elevada.
2.
Problemas fiscais generalizados: Governos worldwide aumentaram gastos durante a pandemia, elevando dívidas públicas. Nos EUA, o déficit orçamentário chegou a 6% do PIB; no Brasil, os estímulos fiscais superaram 8% do PIB em 2020. Dívidas altas exigem mais emissão de moeda, desvalorizando-a e alimentando a inflação.
3.
Transição energética e custos ambientais: Metas globais de descarbonização, como as do Reino Unido para 2050, encarecem a produção ao substituir fontes fósseis por renováveis — mesmo com a queda no custo destas últimas.
4.
Guerras comerciais e incertezas geopolíticas: A política protecionista de Donald Trump, com tarifas a países como México e Canadá, ameaça elevar preços de importados nos EUA e no mundo. A incerteza também reduz investimentos, agravando a inflação.
O caso brasileiro: Desafios específicos
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Fragilidade fiscal: O déficit público persistente e a falta de reformas estruturais (como a previdenciária) desvalorizam o real, pressionando preços de importados.
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Juros altos e dependência externa: Com os EUA mantendo juros elevados (4,25%-4,5%), o Brasil precisa oferecer taxas ainda mais altas (14,25%) para atrair capitais, limitando o crescimento.
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Bombas fiscais futuras: Exemplo: o sistema previdenciário do MEI, onde contribuições baixas contrastam com benefícios futuros elevados, exigindo ajustes.
Um "novo normal" mais caro
A inflação global não retornará aos patamares pré-pandemia tão cedo. Os fatores são estruturais: dívidas públicas insustentáveis, transições tecnológicas e energéticas, e tensões geopolíticas. No Brasil, a combinação de vulnerabilidade fiscal, juros altos e dependência do cenário internacional prolonga o desafio. Enquanto os salários acompanham a inflação, o poder de compra não avança, gerando insatisfação. A solução exigiria disciplina fiscal, reformas e cooperação global — cenário distante em um mundo fragmentado.