Brasil x EUA: Como a política de reciprocidade dos EUA afeta o Brasil e a relação bilateral

A relação comercial entre Brasil e Estados Unidos tem sido alvo de discussões recentes, especialmente após críticas do ex-presidente americano Donald Trump. Em um discurso ao Congresso dos EUA, Trump afirmou que o Brasil cobra tarifas de importação mais altas sobre produtos americanos do que os Estados Unidos cobram sobre produtos brasileiros. Mas será que essa afirmação é verdadeira? E quais são os possíveis impactos dessa política para o Brasil? Vamos explorar esses questionamentos de forma detalhada e didática.
O contexto das críticas de Trump
Donald Trump, conhecido por sua política protecionista, anunciou que o Brasil está entre os países que cobram tarifas excessivas sobre produtos americanos. Ele defende uma política de "reciprocidade", na qual os EUA elevariam suas tarifas de importação para igualar as taxas cobradas por outros países. No caso do Brasil, Trump mencionou especificamente os setores de aço, alumínio e etanol, que já enfrentam aumentos de tarifas. No entanto, a aplicação dessas medidas tem sido marcada por anúncios e adiamentos, gerando incertezas.
Comparação das tarifas entre Brasil e EUA
Dados do Banco Mundial e do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) mostram que, em 2022, o Brasil cobrou uma tarifa média simples de 11,3% sobre produtos americanos, enquanto os EUA aplicaram uma taxa média de apenas 2,2% sobre produtos brasileiros. No entanto, ao considerar a tarifa efetiva (ponderada pelo volume de importações), a diferença diminui: o Brasil cobrou 4,7%, e os EUA, 1,3%. Isso ocorre porque produtos de maior volume comercializado, como aeronaves, petróleo bruto e gás natural, entram no Brasil com tarifas reduzidas ou zeradas.
Regimes especiais e protecionismo brasileiro
O Brasil utiliza regimes aduaneiros especiais, como o drawback e o Recof, que reduzem ou eliminam tarifas para importações de máquinas e equipamentos. Esses mecanismos visam proteger a indústria nacional, especialmente em setores como bens de capital e eletrônicos. Segundo Lia Valls, pesquisadora da FGV Ibre, o Brasil adota um protecionismo maior na indústria em comparação com o setor agropecuário, o que justifica tarifas mais altas em alguns produtos.
Impactos potenciais para o Brasil
Os Estados Unidos são o segundo maior parceiro comercial do Brasil, atrás apenas da China. Em 2024, as exportações brasileiras para os EUA totalizaram US` 40,4 bilhões`, e origem de 15,5% das nossas importações `(US 40,7 bilhões)` destaca um relatório sobre o tema publicado pelo departamento econômico do Bradesco em fevereiro.
O vaivém de Trump e a incerteza comercial
Uma das maiores preocupações é a imprevisibilidade da política comercial de Trump. Ele já anunciou e suspendeu tarifas para México e Canadá em questão de dias, gerando instabilidade. Para o Brasil, essa incerteza pode afetar investimentos e contratos de exportação, já que o comércio exterior depende de planejamento de longo prazo.
As críticas de Trump sobre as tarifas brasileiras têm fundamento em dados, mas a realidade é mais complexa. O Brasil realmente cobra tarifas médias mais altas, mas produtos de maior volume comercializado entram com taxas reduzidas ou zeradas. O impacto das novas tarifas americanas pode ser significativo para setores como o aço, mas outros, como o etanol, devem ser menos afetados. A maior preocupação, no entanto, é a instabilidade gerada pela política comercial de Trump, que pode prejudicar as relações comerciais e a confiança dos investidores. Em um cenário global cada vez mais protecionista, o Brasil precisa buscar estratégias para diversificar seus mercados e reduzir dependências.