Golpe ou perseguição? O caso que divide o Brasil e o STF – Análise resumida

No dia 26 de março de 2025, o Supremo Tribunal Federal (STF) aceitou por unanimidade denúncias contra o ex-presidente Jair Bolsonaro e sete integrantes de sua cúpula governamental — incluindo militares de alta patente, ex-ministros e agentes de inteligência — por tentativa de golpe de Estado. O caso, que envolve instrumentalização de instituições, desinformação e manipulação da opinião pública, marca um momento sem precedentes na história do Brasil: é a primeira vez que um ex-presidente e militares de alto escalão são julgados por crimes contra a ordem democrática. Este processo não apenas revisita os eventos do 8 de janeiro de 2023, mas também testa a capacidade das instituições brasileiras de garantir justiça e romper com ciclos históricos de impunidade.
A importância do julgamento: Três desafios centrais
O STF enfrenta três grandes desafios neste processo:
1.
Desconstruir a narrativa simplista sobre o 8 de janeiro: As investigações revelam que a invasão aos Três Poderes foi o ápice de um plano sistemático, articulado por meses dentro do governo. O julgamento precisa evidenciar que houve um projeto organizado para subverter a democracia, incluindo campanhas de desinformação e ataques anteriores ao 8 de janeiro.
2.
Responsabilizar militares de alta patente: A presença de generais no banco dos réus coloca em xeque a relação histórica entre as Forças Armadas e a democracia. O processo é crucial para reafirmar a subordinação dos militares ao poder civil e combater a cultura de impunidade.
3.
Combater a estratégia de "ausência de autores": A defesa dos réus não nega o crime, mas alega que seus clientes não estavam diretamente envolvidos. O STF deve desmontar essa tese, mostrando as conexões comprovadas nas investigações.
Impactos políticos e antropológicos
O julgamento transcende o campo jurídico e afeta profundamente a sociedade:
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Risco de narrativas de perseguição: Aliados dos réus já propagam a ideia de que são vítimas de um sistema autoritário. Essa retórica, amplificada nas redes sociais, pode ganhar força dependendo da condução do processo.
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Disputa pela memória coletiva: A forma como os réus serão retratados — como golpistas ou vítimas — moldará identidades políticas e o conceito de democracia para as próximas gerações.
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Fragilidade das mobilizações de rua: A baixa adesão aos protestos pró-Bolsonaro em 2025 sugere um enfraquecimento da capacidade de mobilização física de sua base, contrastando com a atividade intensa no ambiente digital.
O bolsonarismo além de Bolsonaro
O movimento bolsonarista já se tornou um fenômeno independente de seu líder, com redes de influência digital, alianças religiosas e empresariais. Mesmo com a responsabilização de figuras centrais, o movimento pode se reinventar através de novos porta-vozes e candidaturas locais, mantendo vivos seus pilares ideológicos, como o discurso antissistema e a defesa de "valores tradicionais".
O papel das redes sociais e o cenário eleitoral
As plataformas digitais são centrais na batalha de narrativas:
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Influência na opinião pública: Redes como X (Twitter) e Telegram são usadas para disseminar teorias de perseguição ou reforçar a legitimidade do julgamento.
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Impacto nas eleições de 2026: A condenação ou absolvição dos réus pode reconfigurar a extrema direita, abrindo espaço para novas lideranças ou intensificando a retórica de vitimização.
Repercussão internacional
O caso tem dimensão global:
1.
Conexões com a extrema direita norte-americana: Grupos bolsonaristas buscam apoio em redes como a CPAC e aliados de Donald Trump, que podem usar termos como "perseguição política" para internacionalizar o conflito.
2.
Lições para a democracia na América Latina: O julgamento pode servir de exemplo para outros países que enfrentam ameaças antidemocráticas coordenadas.
Um teste decisivo para o Brasil
Este julgamento representa um marco na história democrática do país, com lições cruciais:
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Democracias precisam ser defendidas: O caso mostra que a estabilidade institucional exige vigilância constante contra ameaças internas.
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O Judiciário como guardião da ordem: A transparência e o rigor técnico do STF serão fundamentais para evitar percepções de parcialidade.
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O futuro da convivência política: O processo redefine os limites do aceitável na esfera pública e pode influenciar gerações futuras sobre os valores democráticos.
Ao final, o Brasil não julga apenas indivíduos, mas decide que tipo de democracia deseja construir — uma que tolera impunidade ou uma que enfrenta seus desafios com firmeza e justiça.