Asilos no Brasil: Amor ou abandono? O dilema dos cuidados com idosos e as verdades que precisamos entender

No Brasil, a ideia de colocar um idoso em uma instituição de longa permanência ainda é vista por muitos como um ato de abandono. Mas será que essa visão faz jus à realidade? Para muitas famílias, essa decisão não nasce da negligência, mas do amor e da responsabilidade, quando os cuidados em casa se tornam inviáveis. O médico gerontólogo Alexandre Kalache, referência no envelhecimento saudável, defende que é hora de quebrar o estigma e entender que, em alguns casos, a institucionalização pode ser a melhor opção para garantir dignidade ao idoso e saúde mental aos cuidadores.
O peso dos cuidados: Quando a família sozinha não dá conta
Cuidar de um idoso dependente pode ser uma tarefa extremamente desafiadora. Ao contrário de uma criança, que se torna mais independente com o tempo, idosos que sofrem de doenças como Alzheimer ou outras condições degenerativas tendem a exigir cada vez mais atenção e assistência.
1.
Exaustão física e emocional: Cuidar de alguém 24 horas por dia, por anos, pode levar à sobrecarga e até mesmo a problemas de saúde no cuidador.
2.
A sobrecarga recai, principalmente, sobre as mulheres: Historicamente, filhas, noras e esposas assumem esse papel, muitas vezes conciliando-o com trabalho e outras responsabilidades.
3.
Famílias menores e distantes: Antigamente, várias gerações viviam juntas, e os cuidados eram divididos. Hoje, muitos idosos contam apenas com um único filho ou sequer têm parentes próximos que possam ajudar.
O julgamento social: "Mas é nossa obrigação cuidar!"
A crença de que "asilo = abandono"
pesa na consciência das famílias. Kalache enfatiza que essa culpa é injusta e reforça um estigma perigoso:
"Se uma família decide institucionalizar um idoso, é porque já tentou de tudo antes – e reconhecer essa necessidade não deveria ser motivo de vergonha."
A falta de suporte do Estado: No Brasil, a responsabilidade do cuidado recai quase exclusivamente sobre a família, sem políticas públicas eficazes para oferecer suporte financeiro ou treinamento para cuidadores.
Quando a institucionalização pode ser a melhor solução:
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Em casos de demência avançada, quando o idoso precisa de supervisão médica constante.
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Quando a família não tem estrutura física ou emocional para oferecer cuidados adequados (por exemplo, um idoso acamado em uma casa sem adaptações).
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Quando o cuidador está tão sobrecarregado que desenvolve depressão, ansiedade ou outras doenças.
O mito do "asilo terrível" e a realidade da necessidade
Muitos ainda associam asilos a abandono e maus-tratos, mas essa visão não reflete a realidade de todas as instituições. Sim, faltam opções públicas de qualidade no Brasil, e a fiscalização precisa ser mais rígida. No entanto, quando bem administradas, essas instituições oferecem benefícios que muitas famílias, sozinhas, não conseguem proporcionar.
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Atendimento especializado: Equipes treinadas para lidar com doenças crônicas e situações emergenciais.
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Socialização: O isolamento é um problema grave entre idosos. Instituições bem estruturadas oferecem atividades e interação com outras pessoas da mesma faixa etária.
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Segurança: Ambientes adaptados para evitar quedas, controle de medicação, prevenção de acidentes como deixar o fogão ligado, entre outros.
Como mudar essa visão?
Para que as instituições de longa permanência sejam vistas como uma alternativa legítima e digna para idosos que necessitam desse suporte, é preciso uma mudança de mentalidade e políticas públicas mais eficazes.
1.
Conversar sobre o tema sem tabus: Desmistificar a ideia de que "família perfeita cuida sozinha".
2.
Cobrar investimentos públicos: Mais ILPIs (Instituições de Longa Permanência para Idosos) públicas e fiscalização das privadas.
3.
Aceitar que pedir ajuda não é falha, mas uma decisão consciente: Como Kalache reforça, "buscar apoio não é egoísmo – é realismo".
Institucionalizar um idoso pode ser um ato de amor
A ideia de que colocar um idoso em uma instituição significa "desistir dele" precisa ser superada. O verdadeiro cuidado envolve avaliar o que é melhor para o idoso e para a família como um todo. Em vez de julgar, a sociedade precisa apoiar os cuidadores, garantir melhores condições para os idosos e criar alternativas reais para o envelhecimento digno.
Pontos que devemos repensar:
"Cuidar sozinho até o colapso não é virtude – é desamparo."
"Asilo não é abandono: muitas vezes, é a única forma de garantir segurança ao idoso e saúde a quem cuida."
"O Brasil precisa parar de romantizar o sacrifício e oferecer opções reais para a velhice."
O envelhecimento da população brasileira é um fato, e muitas famílias, em algum momento, terão que enfrentar essa difícil decisão. Que possamos fazer isso com menos culpa, menos preconceito e mais suporte – tanto para quem cuida quanto para quem precisa de cuidado.