O dilema da tecnologia na educação: Foco x Distração - Por que manter a atenção na escola virou um ato de resistência?

No mundo hiperconectado de hoje, a dificuldade de manter a atenção tornou-se um desafio global, especialmente nas escolas. O artigo de Antônio Álvaro Soares Zuin, professor da UFSCar, explora como a ansiedade exacerbada e a dispersão causadas pelo uso constante de tecnologias estão transformando a educação e as relações sociais. Com base em pesquisas e exemplos concretos, o texto discute os impactos da hiperconectividade na saúde mental e propõe reflexões sobre como equilibrar o uso da tecnologia no aprendizado.
A ansiedade na era digital: Um mal necessário ou um transtorno?
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A ansiedade, originalmente uma resposta evolutiva para sobrevivência, tornou-se um problema quando desencadeada excessivamente pelo estilo de vida moderno.
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O avanço tecnológico, especialmente smartphones, mantém as pessoas em estado de alerta constante, alimentando a cultura do "24/7" (disponibilidade ininterrupta), como descreve Jonathan Crary.
Exemplo: Uma confeiteira que perdeu uma venda por não responder a uma mensagem após a meia-noite ilustra a pressão por estar sempre conectado.
A crise de atenção nas escolas
1.
Estudantes enfrentam dificuldades crescentes para focar em aulas presenciais, levando a proibições de celulares em escolas (como na França, Espanha e Holanda).
2.
Proibir dispositivos, porém, pode aumentar a ansiedade, já que os jovens associam sua identidade à presença online, como argumenta o filósofo Christoph Türcke.
Soluções propostas:
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Contratos pedagógicos: Acordos para uso consciente de tecnologias em sala, integrando-as ao aprendizado (ex.: pesquisas pontuais).
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Concentração profunda: Evitar o "multitarefa", que fragmenta a atenção e prejudica a aprendizagem.
Cyberbullying e discursos de ódio: O lado sombrio da conectividade
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Redes sociais priorizam conteúdos polêmicos (como discursos de ódio) para aumentar engajamento e lucro.
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Pesquisas de Zuin mostram que vídeos de humilhação a professores viralizam globalmente, reforçando a cultura do cyberbullying.
Dados: Um vídeo brasileiro de agressão a um docente teve mais de 2 milhões de visualizações e foi traduzido para outros idiomas.
Lições da pandemia e o papel ativo da escola
Estudos comparativos entre Brasil e Alemanha revelaram que aulas virtuais interativas reduziram ansiedade e melhoraram o aprendizado, enquanto aulas gravadas aumentaram o isolamento.
A escola deve:
1.
Promover debates críticos sobre ética digital e fake news.
2.
Ensinar a filtrar informações, combatendo preconceitos e medos alimentados por algoritmos.
Destaque: O STF brasileiro foi pioneiro ao exigir que plataformas como X (Twitter) e Meta (Facebook) combatam desinformação, diferentemente da lentidão europeia.
O futuro desafiador: Inteligência artificial e novas tecnologias
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Dispositivos como óculos e implantes conectados substituirão smartphones, intensificando os desafios atuais.
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O uso não crítico de IA nas escolas ameaça a originalidade e a formação ética dos alunos (ex.: plágio em trabalhos acadêmicos).
Reinventar a educação em tempos de distração
Manter o foco hoje é um ato de resistência. A escola precisa equilibrar a utilização das tecnologias com a construção de vínculos humanos, incentivando a concentração e o pensamento crítico. Em vez de proibições radicais, propostas como contratos pedagógicos e integração consciente de dispositivos podem transformar a sala de aula em um espaço de aprendizado significativo. O artigo reforça que, em um mundo dominado por algoritmos, a educação deve priorizar a formação de cidadãos autônomos, capazes de usar a tecnologia sem se tornarem reféns dela.