Aproximação entre Estados Unidos e Rússia: Estamos testemunhando o fim da 'ordem mundial liberal'?

A recente reaproximação entre os Estados Unidos e a Rússia levanta questionamentos sobre o futuro da chamada 'ordem mundial liberal'. Esse sistema, consolidado após a Segunda Guerra Mundial, baseia-se na promoção da democracia, do livre comércio e do respeito às normas internacionais, tendo sido amplamente liderado pelo Ocidente, especialmente pelos EUA. No entanto, o crescente questionamento dessa ordem, somado à ascensão de potências rivais como China e Rússia, pode indicar uma mudança profunda na geopolítica global.
O que é a 'ordem mundial liberal'?
A 'ordem mundial liberal' refere-se a um modelo de governança internacional baseado em regras e instituições que promovem a cooperação entre países. Seu propósito principal sempre foi garantir um ambiente internacional previsível e seguro, evitando conflitos e facilitando o desenvolvimento econômico.
Princípios fundamentais:
1.
Defesa da democracia e dos direitos humanos.
2.
Livre comércio e economia de mercado globalizada.
3.
Resolução de conflitos por meio do diálogo e diplomacia.
4.
Multilateralismo, com instituições globais regulando as relações entre países.
Principais instituições:
- Organização das Nações Unidas (ONU): Criada em 1945, tem como objetivo a manutenção da paz e a cooperação entre países.
- Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN): Aliança militar liderada pelos EUA para garantir a segurança dos países membros.
- Organização Mundial do Comércio (OMC): Regula o comércio global e promove a eliminação de barreiras comerciais.
- Fundo Monetário Internacional (FMI) e Banco Mundial: Instituições que oferecem suporte financeiro e técnico para estabilizar economias em crise.
Esse modelo foi amplamente impulsionado pelos EUA e seus aliados europeus, garantindo décadas de estabilidade e crescimento econômico global.
Os desafios à ordem mundial liberal
Nas últimas décadas, a ordem liberal tem enfrentado desafios significativos, que vão desde o questionamento de sua legitimidade até ações unilaterais de grandes potências.
Conflitos militares sem aprovação internacional:
- A invasão do Iraque em 2003 pelos EUA, sem aprovação da ONU, enfraqueceu a legitimidade do multilateralismo.
- A anexação da Crimeia pela Rússia em 2014 violou tratados internacionais e gerou sanções contra Moscou.
Ascensão de potências revisionistas:
- A China busca ampliar sua influência econômica e militar, desafiando o domínio ocidental.
- A Rússia, por sua vez, vem se posicionando contra a expansão da OTAN e tenta reconstruir sua zona de influência.
Crises internas no Ocidente:
- O aumento do nacionalismo e do protecionismo em países como os EUA e o Reino Unido (Brexit) tem reduzido a cooperação internacional.
- Movimentos políticos internos questionam o papel dos EUA como 'polícia do mundo', sugerindo maior isolamento e menor intervenção global.
Aproximação entre Estados Unidos e Rússia: O que está mudando?
Historicamente, as relações entre EUA e Rússia passaram por altos e baixos, desde o confronto da Guerra Fria até tentativas de reaproximação após o colapso da União Soviética. Porém, nos últimos anos, tensões aumentaram devido a sanções econômicas, interferência russa em eleições ocidentais e conflitos geopolíticos, como a guerra na Ucrânia.
No entanto, sinais recentes indicam uma possível reaproximação:
Mudança na postura diplomática dos EUA:
- Pressões políticas e interesses estratégicos podem levar Washington a buscar um entendimento com Moscou.
- A tentativa de equilibrar sua rivalidade com a China pode ser um dos fatores que impulsionam essa reaproximação.
Impacto na OTAN e alianças tradicionais:
- Se os EUA diminuírem sua pressão sobre a Rússia, a aliança transatlântica pode ser enfraquecida.
- Isso pode gerar desconfiança entre aliados europeus e levar a uma maior militarização da Europa.
Sanções econômicas e relações comerciais:
- O alívio das sanções contra a Rússia poderia impulsionar sua economia e alterar o equilíbrio de poder global.
- Empresas ocidentais poderiam retomar investimentos na Rússia, aumentando a interdependência econômica.
Estamos testemunhando o fim da 'ordem mundial liberal'?
A aproximação entre EUA e Rússia representa mais um capítulo nas mudanças da política global, mas não significa, necessariamente, o fim da ordem liberal. Alguns fatores devem ser levados em conta:
- A ordem liberal já enfrentou crises no passado e sobreviveu. O sistema global tem mostrado resiliência, mesmo diante de guerras e crises econômicas.
- Adaptações são necessárias para manter a relevância da ordem liberal. Reformas em instituições como a ONU e a OMC podem ajudar a tornar as regras internacionais mais inclusivas e eficazes.
- A influência dos EUA ainda é predominante. Mesmo que Washington mude sua estratégia, seu peso econômico e militar continua sendo um fator decisivo no cenário global.
- No entanto, se essa tendência de reaproximação for consolidada, somada ao crescimento da China e ao declínio do multilateralismo, a ordem mundial pode entrar em uma nova fase, menos centrada no Ocidente e mais fragmentada.
A possível reaproximação entre EUA e Rússia é um evento significativo, mas não representa, por si só, o colapso da ordem mundial liberal. O que estamos testemunhando é uma mudança na dinâmica do poder global, onde novas alianças e estratégias podem redefinir as regras do jogo. A forma como os países ocidentais responderão a esses desafios determinará o futuro dessa ordem e o equilíbrio global nos próximos anos.