"Sexo é divino e orgasmo é presente de Deus": O movimento católico que defende famílias gigantes: - Sem contraceptivos, sem limites

Em um mundo onde a taxa de natalidade está em declínio, um movimento crescente entre católicos conservadores no Brasil desafia as tendências modernas: casais que renunciam a métodos contraceptivos e abraçam a "abertura à vida", acolhendo quantos filhos Deus lhes enviar. Inspirados por ensinamentos religiosos e pela crença na providência divina, essas famílias numerosas ganham visibilidade nas redes sociais, influenciando práticas médicas, educacionais e até mesmo o mercado de serviços católicos. Este resumo explora as motivações, os impactos sociais e as controvérsias desse fenômeno, baseando-se em relatos de famílias, especialistas e fontes confiáveis.
A escolha pela "abertura à vida"
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Princípios religiosos: A decisão é fundamentada na interpretação de que a sexualidade deve ser "procriativa e unitiva", seguindo encíclicas como Humanae Vitae (1968), que proíbe contraceptivos artificiais.
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Providência divina: Muitos casais, como Liliane e Jean Lopes (pais de sete filhos), acreditam que Deus proverá recursos para sustentar a família, mesmo em contextos econômicos desafiadores.
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Redes sociais como vitrine: Influenciadores como o ator Juliano Cazarré (seis filhos) normalizam o estilo de vida, compartilhando rotinas e valores católicos para milhões de seguidores.
O mercado católico em torno da natalidade
Serviços especializados: Surge uma demanda por profissionais alinhados à fé, como:
1.
Ginecologistas católicos: A médica Melissa Abelha, por exemplo, promove a NaProTechnology, método natural para fertilidade baseado no ciclo menstrual, rejeitando anticoncepcionais e fertilização in vitro.
2.
Doulas católicas: A rede Vendeia reúne centenas de doulas que integram orações e músicas religiosas no acompanhamento do parto.
3.
Educação domiciliar: O homeschooling é comum entre essas famílias, refletindo a desconfiança em relação ao sistema educacional tradicional.
Resistências e críticas
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Estigma social: Famílias relatam comentários como "irresponsabilidade" ou "opressão da mulher". Liliane Lopes enfatiza que cuidar dos filhos é uma escolha, não uma imposição.
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Saúde da mulher: Casos como o de Vivian Rinaldi (quatro filhas, com talassemia) mostram o uso de métodos naturais (como Billings ou Creighton) para espaçar gestações, mas críticos alertam para riscos de gravidezes consecutivas.
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Polêmicas médicas: A proibição de anticoncepcionais e fertilização in vitro gera debate, especialmente em casos de infertilidade ou condições de saúde delicadas.
Conexões políticas e conservadorismo
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Afinidade com a direita: A maioria desses casais se identifica com agendas conservadoras, como oposição ao aborto, críticas ao feminismo e resistência a direitos LGBTQIA+.
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Contexto global: O historiador Víctor Gama aponta que a retórica pró-natalidade reflete preocupações de grupos católicos com o declínio demográfico e o avanço de outras religiões, como o islamismo na Europa.
Diversidade dentro do catolicismo
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Vertentes envolvidas: Desde o Opus Dei até comunidades carismáticas (como Shalom e Canção Nova), o movimento abrange diferentes correntes, unidas pela defesa da "cultura da vida".
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Tradicionalistas: Grupos que rejeitam reformas do Vaticano II, como os sedevacantistas, também aderem à causa, muitas vezes associando-a a uma resistência à modernidade.
O fenômeno das famílias católicas numerosas no Brasil revela um cruzamento complexo entre fé, medicina e política. Por um lado, esses casais encontram na religião um sentido de missão e comunidade; por outro, enfrentam desafios práticos e críticas de quem vê suas escolhas como anacrônicas ou arriscadas. A expansão desse movimento – impulsionada pelas redes sociais e por um mercado de serviços religiosos – reflete não apenas uma devoção pessoal, mas também uma resposta conservadora a mudanças sociais globais. Seu impacto a longo prazo, tanto na Igreja quanto na sociedade, ainda está por ser completamente entendido, especialmente em um país onde a secularização e o pluralismo religioso avançam.