STF decide destino de Bolsonaro e militares: Futuro da democracia brasileira - O que está em jogo?

Em 26 de março de 2025, o Supremo Tribunal Federal (STF) aceitou por unanimidade a denúncia da Procuradoria Geral da República contra o ex-presidente Jair Bolsonaro e sete integrantes de sua cúpula governamental, incluindo militares de alta patente e ex-ministros. Este é um marco histórico: pela primeira vez, um ex-presidente e militares são julgados por crimes contra a ordem democrática, reacendendo debates sobre impunidade, justiça e o futuro da democracia brasileira.
O significado do julgamento
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Rompe com a tradição de impunidade: O processo desafia a histórica dificuldade do Brasil em responsabilizar elites políticas e militares, especialmente após a ditadura (1964-1985).
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Teste institucional: Avalia a capacidade do sistema jurídico de reagir a ameaças antidemocráticas e reafirmar a subordinação dos militares ao poder civil.
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Contexto amplo: O julgamento não se limita aos eventos de 8 de janeiro de 2023 (invasão dos Três Poderes), mas investiga um plano sistemático para desestabilizar a democracia, incluindo desinformação e manipulação institucional.
Os três desafios do STF
1.
Desconstruir a narrativa simplista: Mostrar que o 8 de janeiro foi o ápice de uma articulação prolongada, não um ato isolado.
2.
Responsabilizar militares: Enfrentar a resistência histórica das Forças Armadas em se alinhar incondicionalmente à democracia.
3.
Combater a estratégia de "ausência de autores": A defesa dos réus admite o crime, mas nega autoria direta, exigindo do STF provas robustas para desmontar essa tese.
Impactos políticos e antropológicos
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Risco de vitimização: A narrativa de "perseguição política" pode ganhar força nas redes sociais, alimentando polarização.
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Batalha simbólica: O julgamento redefine valores democráticos, influenciando como a sociedade interpreta conceitos como "golpe", "patriotismo" e "justiça".
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Mobilização fragmentada: Protestos pró-Bolsonaro em 2025 tiveram baixa adesão, sugerindo enfraquecimento da capacidade de mobilização de rua, apesar da ativa presença digital.
O bolsonarismo além de Bolsonaro
O movimento se transformou em um ecossistema ideológico, com redes de influência religiosa, empresarial e digital. Mesmo com a possível condenação de sua liderança, o bolsonarismo pode se reinventar através de novos porta-vozes e candidaturas locais, mantendo discursos antissistema e moralistas.
O papel das redes sociais e o cenário eleitoral
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Disputa narrativa: Plataformas como X (Twitter) e WhatsApp são centrais para moldar a opinião pública, com réus se apresentando como vítimas e defensores da democracia destacando a legalidade do processo.
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Eleições 2026: O julgamento pode reconfigurar a extrema direita, abrindo espaço para novas lideranças ou intensificando a retórica de perseguição.
Repercussão internacional
Grupos bolsonaristas buscam alianças transnacionais, especialmente com a direita norte-americana, para internacionalizar a narrativa de "perseguição política". O caso pode influenciar o equilíbrio democrático na América Latina, em um contexto de ascensão global de forças antidemocráticas.
Lições para a democracia brasileira
O julgamento é um divisor de águas por duas razões principais:
1.
Democracia exige defesa ativa: A tentativa de golpe revelou vulnerabilidades que demandam mecanismos institucionais mais sólidos.
2.
Justiça como pilar: A credibilidade do STF depende de transparência, rigor técnico e equilíbrio, evitando percepções de parcialidade.
O processo não é apenas sobre punição, mas sobre a capacidade do Brasil de aprender com seu passado e fortalecer instituições para garantir que ataques à democracia não se repitam. Como destacado pela antropóloga Isabela Kalil, o resultado moldará não apenas o futuro político, mas a identidade coletiva do país.